Vanda Ferreira - Cujo cognome é Bugra, nasceu em 04 de fevereiro de 1959, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É produtora de artes visuais e literatura. Também é agente de educação, cultura e meio ambiente.
Editou seu 1º livro em 1990. Hoje tem sete livros editados, outros em rede virtual, participação em antologias, e publicação em diversos sites, em especial em seus muitos blogs.

Premiações: 1º lugar no Salão de Artes de Corumbá/MS em 1991 - 1º lugar na Noite Nacional de Poesia de Campo Grande/MS, em 1990 - Diversas Menções honrosas.

Certo dia, fiz uma pausa diante de entulhos induzida pela atração incontrolável por coisas antigas, velhas, abandonadas. Tipo apagadas, deletadas, substituídas ou simplesmente desprezadas.

Descobri que estava diante de uma montanha de mistérios. Tantas histórias ocultadas, mascaradas, despejadas ali naquele monte de lixo. Por dedução tentei decifrar o passado de quinquilharias, como, por exemplo, a quem pertenceu, teria sido útil e porquê foi inutilizado...

Pausei o olhar sobre um ramalhete de rosas murchas. As pétalas já desidratadas, pelo passado tempo insistia em sangrar a originalidade da imponência vermelha do rubi...

Aquela cena me inspirou retrocesso. O plantio, daquelas flores, sua colheita, a comercialização, o presentear, a emoção de cada fase de vida daquelas rosas, tudo que se processou até aquele nosso primeiro encontro.
Interroguei a mim mesma, e meus “botões”, ficaram por demais curiosos quanto à missão daquele ramalhete, que apesar de jaz ao lixo, mantinha o certo quê de beleza. Teria obtido o êxito ao objetivo que lhe propuseram? Quantos prazeres e a quantas pessoas, aquelas rosas teriam proporcionado antes, durante e após sua transformação em ramalhete, além de meu apreço?

Ao avistar uma velha porta, uma porta quebrada, escombro de algum prédio reformado ou demolido, fiquei a pensar se alguém sentou-se ao seu batente para meditar com o pé no chão, ou se algum casal, em beijo de despedida a fez de marco da separação, ou a usou como portal para alegre beijo de reencontro.

Todo lixo tem história. Cada um daqueles objetos já proporcionou alguma ou várias emoções, tristes ou alegres aos seus abandonadores que por algum motivo, num certo (ou até mesmo incerto) momento fora descartado, posto do lado de fora da intimidade, enfim jogado fora de suas vidas.

Talvez algumas coisas são jogadas com o intuito de se apagar dolorosa lembrança...
Com certeza cada um dos componentes daquele amontoado, marcou momento histórico, episódio no qual somente o próprio objeto pactuou da cumplicidade sentimental.
Nessa apreciação vi infinidade de coisas sentindo que são alojadoras de contos e contos, prosas e prosas.
Ao redor: a velha árvores, o buraco na terra, o caco de garrafa, a lixeira, a panela amassada e furada, a xícara partida e muitos, muitos objetos, cada qual sendo um cofre de histórias codificadas.

O amanhã se encontra num tempo imaginário e nosso encontro com o desconhecido tempo pode acontecer após o transcorrer de um espaço de tempo totalmente variável.

O amanhã pode chegar após um par de segundos, ou pode estar há alguns minutos, bem como há mais de uma quantidade de vinte e quatro horas. Contudo, será um novo período, inédito por seu simples advir.
Certamente o amanhã chegará, e se o momento de sua chegada é desconhecido e incalculável, essa variável implica no esperar com ou sem ansiedade. Porem, nada impede que haja um estado de expectativa.

Durante o hoje se faz uso de asas poderosas para a viagem em diversidade de horizontes climáticos, coloridos ou não. Também para viajar em fantasias, onde se galga com fé para realizações plenas de êxito. Êxito até mesmo do hoje se tornar realidade na presença do “amanhã”.

O amanhã chegará convertido no hoje e o transportará para o ontem, numa mutação fenomênica, literal e literariamente, independente do eu, do hoje e do ontem.

O amanhã é crucial ao efêmero hoje. O hoje é simplesmente o lapso de tempo que serve de degrau para se atingir o amanhã. O hoje existencialmente se faz para estabelecer o amanhã. O amanhã... é fatal.

Poesia Matuta

Minha poesia é simples, matuta,
Seivada de natureza, grama e capim.
Tingida de por-do-sol, lua, grilos e cigarras;
E roncos de bugios
Rasgando os perigos noturnos
Em aloiradas madrugadas
Minha poesia mostra o dia
Trivialmente verde arvoral
Chova ou faça sol!
Soma invernos,
Primaveras e verões,
Para fazer a beleza outonal.
Entardecer é processo de ruminação
Junto ao gado no pasto
E as sábias galinhas empoleiradas
Nos fortes braços dos ingazeiros.

Vanda Ferreira



Descaradas Estampas

Sorriso matuto tatua
Vinca pele frugal
Carne facial
Roteiro de comunicação;
Na liberdade da nudez
Cisma o sol
Sangra e jorra
Descaradas estampas;
Veste-me a brancura
Cisma grafia de onça
Pinta jaguatirica.
Desconfiada espio
No rasgo celeste...
Inescrupulosidade estacione em mim.

Vanda Ferreira



Rosa dos Ventos

Universalidade converge
Depura rosa-dos-ventos
Rumina amor em poesia
Olhos marejam
versos d'água
invisível chuva noturna
prova a grama na alvorada
O pranto da lua
Choro de alegria
fervilha vida no escuro
cantaria, danças
afinadas orquestras.
Silêncio é grado ao sol
guarda ofuscante
miscelânea do confuso
encrustação do calor que guarda arco-íris.

Vanda Ferreira



Pão

Sovo pão nos departamentos bucais;
sede da língua
fome dos dentes,
linguagem do paladar
amassa-pão,
Celeste massa!
Boca cheia cria levedada fantasia
ejeta picância à saliva
para fermentar rodeios
invasões na varanda do pensamento.
Mastigo lembranças,
imagináveis emoçoes
estacionadas em desconhecida alvorada;
Divagações na avenida do crânio
trânsito livre
logro do esmo
idéias viajeiras para passado,
futuro, histórias, personagens,
pessoas e lugares ,
antiga e atual mente;
Na cumbuca cerebral
fornalha assa-pães.
como pão,
untado de especiarias matinais
Trituração de sal, fel, mel
Roça e curral.
Digestão libera verdades...
sangria de conclusão.

Vanda Ferreira



Poema do Meio-século


Carne pirograficada
estilizado grafismo
pontua a pele
demarca as faces;
Par de profundas fendas
expressividade sentimental
contação auto-biográfica;
Rosto mapeado,
tatuado de versos,
linhas de particular história
cravadas em esculpida página-entre-parenteses;
Sinal lunar
resumo de quartos minguados
boca fechada fala:
Lê-se na brecha das nesgas de marfim
(harmonizadas porcelanas).
Paladar experimenta versos salivados
esfregados no céu de particular mundo
sentimentos? É a carne quem os vive!
Poema sinestésico
Vanda Ferreira
Som de passarinhos
é verde arvoral,
é raio de sol
hino de louvor à alvorada,
cantata de abertura para os cílio solares;
Música instrumental
é releitura humana;
poética parceria de coração e cérebro
sentimentais partituras escritas com lágrimas,
evidenciadas com sangue e sabores frugais.
o cantar humano é cenário,
construido de poderes,
produzido em campo sentimental
imaginário filme que retrata tempo,
marcos instituídos nos cinco sentidos.
Dores e alegrias, sabores e aromas,
cores e texturas,
comunhão de passado, presente e futuro
poemas de céu e terra multicores.
Roteiro da liberdade
Vanda Ferreira
Ouço meu mar.
Inquietude vermelha,
trajetória de meu coração,
implode, explode
e tudo pode!
Surfar em pranchas de sonho,
navegar em barcos de matutice,
cruzar sinais de glamourosos navios
da lua repartida em meu céu.
O vento passeante,
andarilho em torno dos neurônios,
fala ao pensamento cardíaco.

Vanda Ferreira



Inveja e Ira (Sete Pecados)

Há um tipo de lepra que come,
outra q bebe, outra que rasga;
Lepra que alfineta os roteiros de paz
funga a plantação de flores, mofa a fertilidade da terra.
Há o mal instalado em retorcido corpo
cunvulsivo de ira espionando o bem.
O mau sonda o bom
Portando em ambas mãos escancarado desejo de saquear;
Punhais, facões, tridentes;
rajadas sopradas de venenosas goelas
(labaredas de irises de incandescidos fornos)
tecem alastradas armadilhas
costuradas com perigosa linha de inveja,
lepra munida de sede, fome e outras incontidas ardências.
Quilométrica lingua cravada na garganta
de famintos vermes comendo vivas carnes;
Inveja lambe santas sangrias,
deposita venenos para manter as alargadas chagas
Há tantos tipos de lepra...
Galeria de Arte
Vanda Ferreira
Meu tapete é o gramado
grande sala sem paredes,
galeria e arte onde assisto
espetáculos musicais,
romanes e documentários.
Duplo teto
feito de sol e lua.
Nuvens grávidas,
flutuantes desejos
explodem nos horizontes.
Olhos viajantes
perambulam cenários,
estacionam no sol.
Cortinas verdes
janelas e portas do terreiro,
descaso das cores
brechas de brancura
para refrescar a pele das plantas.

Vanda Ferreira



Flor da Embiruçu


Tronco tatuado de musgos
Desgalha robustos ramos
Revoluciona convenções florais
Para saciamento dos beija-flores.
Casulo fada descerra liberdade,
Aberto cálice jorra cristal,
Múltiplas varas de condões
Encantamento de encontro
Lambeção de vento
Nos canutilhos de verdades matutas
Brancura da embiruçu
É chuva de pistilos
Celestialmente azuis
Envolta de cordão umbilical
Despojada fita de fibra
Retorcida para o enlace de longos desejos
Múltiplos estames
Tochas de artifícios
Colhidas pelo sol.

Vanda Ferreira



Prosa Poética

(trechos do livro inédito “Olhações”)

Dentro de cada orquídea florida
Duende acordado
Bebe sereno
Toma banho de lua
Lava a alma da flor
Os olhos perfumados
Brancos lisos escondidos
Cheios de feitiço
Encantam a quem olhar
Prendem suspiros para
Soltar nas noites
Silenciosamente a flor mente
Ser vegetal
Esconde espírito
Num eixo interno
Manteado de pétalas
Levemente a farfalhar

No campo
Olhos passeiam
Em repetitiva história
Do estático velho coqueiro...
...Não resistiu à bela da noite
sustentado por terra
cresceu inclinado
reverenciando paixão
Morrerá retorcido
No desejo enrustido
Tentando abraçar
O entardecimento do leste
Para beijar o inexistente lábio da lua
Bela coreografia
Exposta em cordão ao vento
varal pendura pensamentos,
Partes celestes,
Pedaços de saudade
Entrecortada pelo vento.

Ombros de madeira
Vestem histórias;
Recentes passados
Perduram nos rebas broches
Presos ao cós da calça
Desvestida da elegância muscular.
Camisas acenam
Mangas maleáveis
Pactuando brevidade
Reencontro carnal.
Evasão de lembranças,
Livro aberto,
Ao leo
Coloridos capítulos devassados pelo sol.

Brilhante olho
No rosto redondo do céu
Sempre aberto para o vento azul
Equilibra visões entre noite e dia
Olha o mundo,
Aves, águas, árvores;
O dia tem um olhar inverso
Nunca é olhado;
Agressivo olho que somente olha
Ofusca olhos que ousam
Descobrir sua íris multicor;
Existe para o exercício da ótica
Que observa entorno
Parâmetros externos
Exigência de concentração dispersa...
Mundo viral gira
Animais e plantas
Cores distribuídas na pele da terra
Vistas através do sol
Proporções carnais nas cavidades
Bolitas em meu rosto
Enxergam induzidas conquistas
Sedutora parceria que abre cílios.
Quando o céu azula a testa
Quer olhar profundeza
Há troca de olhares
O interno suplica atenção
Em corujas nas trilhas de terra
Matutando a existência das esquinas
Olhar compenetrado é feito de lua
É feitiço devassador de mistérios
Escondidos no breu celeste
Deitada em travesseiro de nuvens
Visão de silêncio, de vento.
Valores cobertos de razões
Cantam para abertura de meus olhos
Velho espelho
Preso em meus dedos
Mostra o mel dos olhos

Lâmina refletora foca história
Sobrancelha desenhada com maestria
De longiquoa vaidade.

Pés sustentam segredos
Escondem tatuagens
Estigmas de luas cheias
Aprisionadas em trilhas sentimentais
Piro grafadas em torno dos olhos
Construiu cofre de preservação
Disfarce na teia facial.
Dores escondidas
Em roxas olheiras
Tingem a meninice do olhar.
Restos marcos
De antigas poesias
Feitas em jardins floridos.

Sonho de poeta
Quer mais que ossos e pele
Visa mutações,
Sangue verde florestal
Seiva de planta rasgando a terra,
Natalina flor de guavira;
Visa prazeres de bicho de asa,
Penas, pelo ou couro.
Deseja deter a fidelidade canina,
O simples da felicidade por ter um dono
-somente um dono-
Almeja sossego maternal
De cadelas paridas
Serve colostro em devassados mamilos
Guarda bens preciosos,
Território de particular jardim
Cala-se para contemplar estrada vazia
Na realidade do Saci Pererê,
Assobios trinam quietude
Sedução noturnamente matuta
Desfila em passarela penumbrada
Dos cristais celestialmente azuis.
Olhos fechados espionam
- frenesi da alma poética -
Branca, sempre virgem.
Imaculada carente
Desejos ardentes
Buscando ser pedra,
Dormir ao relento
Na terra de emas e seriemas;
Velhas árvores
Fazendo contação de segredos
Agregam sabedoria de raízes
Processo de crescimento equilibrado
Para cima e para baixo
Na terra
olhos estirados espionam orvalho,
Estrume,
Alegria andante das formigas
Procuro no peixe seu olhar!
Esféricos olhos mergulhados em mistérios
Luas cristalinas
Cheias d’água
Bolhas densas
Na cabeça cravejada de lascas de ouro
Atravessam, cortam o escuro.
Meus olhos não vêem!!
Somente o peixe me vê
Estimula utopias
Comunidade vivente em castelos
Grutas santas
Onde certamente adoram seu rei.
Olho para Joana D’arc:
Fortes linhas delineiam profundeza.
Marcante expressão
Cravada entre – cílios.
Olhos presos
Demarcados por vírgulas pretas,
Nesgas serpentinas
Nos parênteses visuais de Joana D’arc.
Pálida porcelana antiga
Cravejada duplamente.
Luas negras eternizadas
Na imaginação dos homens,
Reproduz eterno sono.
Cetim de mortalha
Coroa sua cabeça de totem,
Manto exagerado
Veste-a de importante história.

No escuro de seus olhos
Globo de multicores
Estrelas d’ amor doentio.
Encontro’s olhos de Jesus Cristo.
Úmidas pupilas celestes globalizam humanidade,
Cristalizam paz,
Tantas expressões
Tentadas pelo homem:
Todas mostram entrega e resignação.
(quatro vermelhas rosas).
Pincelaram o corpo
(Seivaram a pele clara sem pecado)
Bento momento espargiu
Farpada coroa
Aura de dor
Na cabeça de Jesus Cristo;
Um jardim eterniza vestígios
Transparentes portas redondas
Dupla feita de cristal azul
Leveza e suavidade
Contrastam saída e entrada,
Início e fim,
Perene testamento
Nas milenares Oliveiras.
Pauso nos olhos de Mona Lisa
Lá permanece o deboche da incognititude.
Olhar mascarado por mistérios que não se rompem,
Não se corrompem com lanças de espionagem.
Meus olhos nos olhos de Mona
Inquietação sucumbe
Invasões que eternizam curiosidade.
O olhar de Mona Lisa hipnotiza;
Bobagem, numa sábia,
Cega aleatorizada visão.

Desejo de beijar fica preso
No sorriso introvertido
De sua boca copiada de secretos desejos.
Ao olhar Mona Lisa
Profundamente sou olhada
Por importâncias do desdém
E mosáiquicas fantasias.
Espio céu noturno,
Belezas cúbicas
Interpretadas pelo antepassado...
Hipotenusas, medusas, braços de estrelas.
Tudo solto, livre e estático!
À noite redondo olho na testa do céu
Unicórnio para invocações
Releituras e exercícios
Dos medievais espíritos
Ainda tem magias,
Crença de noivas
E fé da terra.

São Jorge lá!
Cá: dragões que já não cospem fogo...
Mesmo assim perambulam
Arrastando o peso dos perigos.

Vanda Ferreira